Sião, Nossa Maior Alegria em Meio ao Exílio

Lucas Lauriano

Lucas Lauriano

· 8 min leitura
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Uma meditação no Salmo 137

Há uma cena marcante em O Senhor dos Anéis que ajuda muito a abrir nosso coração para o Salmo 137. Em meio à escuridão de Mordor, quando toda esperança parece perdida, Samwise Gamgee se lembra do Condado. Ele fala das macieiras floridas, dos pássaros, da primavera que ainda vai chegar. Aquela memória não era só nostalgia. Era o que o mantinha de pé, caminhando. O lar perdido doía, mas também sustentava.

Esse é exatamente o tom do Salmo 137. Ele nasce da alma de um povo exilado, ferido e humilhado, mas que se recusa a esquecer onde está sua verdadeira alegria. É o cântico de peregrinos que choram longe de casa e, ao mesmo tempo, se agarram a ela com uma fidelidade radical.

O contexto do lamento: quando o juízo encontra a saudade

O exílio babilônico não foi um acaso da história. Foi o justo juízo de Deus sobre Judá, depois de gerações de idolatria, infidelidade e desprezo pelas advertências dos profetas. Em 586 a.C., Jerusalém foi destruída, o templo incendiado e a elite do povo levada para a Babilônia. O centro do culto, da identidade e da alegria espiritual havia sido arrancado.

O Salmo 137 é um retrato da alma nesse momento. Não é um tratado teológico frio, mas um lamento honesto, inspirado, que nos ensina como o povo de Deus sofre e como sofre diante de Deus.

A dor da memória (Salmo 137.1–4)

“Às margens dos rios da Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião.”

Os rios da Babilônia, símbolos de prosperidade e poder imperial, se tornam o cenário do choro. O detalhe é importante: eles choravam porque lembravam. A memória é a fonte da dor. Sião não era apenas uma cidade. Era o lugar da presença manifesta de Deus, do culto, dos sacrifícios, da alegria do povo reunido.

Pendurar as harpas nos salgueiros foi um gesto profundamente simbólico. A harpa era instrumento de louvor. Suspendê-la era confessar: não conseguimos cantar. Não porque Deus estivesse ausente da Babilônia, mas porque o culto pactual havia sido interrompido. A fé deles não era algo portátil, para entretenimento.

Quando os opressores dizem: “Cantem para nós um dos cânticos de Sião”, o pedido não é inocente. É zombaria. É escárnio. Transformar o louvor em espetáculo seria profanar o nome do Senhor. Por isso a pergunta soa como um protesto santo:

“Como entoar o cântico do Senhor em terra estranha?”

O voto de lealdade (Salmo 137.5–6)

Diante da tentação de se acomodar à Babilônia, o salmista faz um juramento radical:

“Se eu de ti me esquecer, ó Jerusalém, que se resseque a minha mão direita.”

Ele prefere a inutilidade à infidelidade. Prefere perder a habilidade de tocar a harpa a perder a memória do lugar da presença de Deus. O voto fica ainda mais forte: que a língua se cole ao céu da boca se Jerusalém deixar de ser sua maior alegria.

Aqui está o coração do salmo. Sião acima de toda alegria. Nenhum conforto no exílio pode competir com a alegria da presença de Deus. Essa é a bússola espiritual do povo da aliança.

O clamor por justiça (Salmo 137.7–9)

Os últimos versículos nos confrontam. Edom, um povo irmão, comemorou a destruição de Jerusalém. Babilônia executou sua crueldade com violência extrema. O salmista clama para que Deus se lembre. Não é vingança pessoal, é um pedido por justiça divina.

Essas palavras duras pertencem aos chamados salmos imprecatórios. Elas não nos ensinam a agir com violência, mas a entregar o juízo nas mãos de Deus. São uma confissão de que o mal não ficará impune e de que a história está sob o governo do Juiz justo.

A Bíblia não suaviza a dor do mundo caído. Ela leva essa dor diretamente diante de Deus.

Cristo, o verdadeiro Sião

No Antigo Testamento, Sião era o lugar do culto, da presença e da alegria do povo de Deus. Mas sempre apontou para algo maior.

No Novo Testamento, Sião é revelada como a Jerusalém celestial, a cidade do Deus vivo, o lugar definitivo onde Deus habita com o seu povo. E o centro dessa nova Sião não é um edifício. É uma Pessoa. Cristo é o verdadeiro Templo. Nele, o exílio termina. Nele, o acesso à presença de Deus é pleno e permanente.

Estar longe de Cristo é viver em exílio. Estar em Cristo é já habitar em Sião, mesmo caminhando pela Babilônia deste mundo.

O grande perigo da vida cristã no exílio não é, na maioria das vezes, a perseguição aberta, mas a sedução silenciosa. A Babilônia raramente nos ameaça de frente. Ela nos convida a entrar e oferece conforto, reconhecimento, segurança, distrações constantes e uma sensação de pertencimento suficiente para nos fazer esquecer que estamos apenas de passagem. Pouco a pouco, o coração vai se acomodando. E sem perceber, começamos a cantar as canções da Babilônia com mais entusiasmo do que os cânticos de Sião.

Por isso, o chamado bíblico não é apenas para resistir ao pecado escandaloso, mas para vigiar os afetos. O problema não é viver na Babilônia, é deixar que a Babilônia viva em nós. Quando o conforto deste mundo se torna nossa maior alegria, algo em nós já começou a se esquecer de Sião.

É nesse ponto que a memória se torna um ato espiritual. Lembrar-se de Sião não é saudosismo religioso, mas fidelidade. É manter o coração ancorado naquilo que Deus prometeu, mesmo quando tudo ao redor parece confortável demais para desejar outra pátria. Lembrar-se de Sião é amar a Igreja, apesar de suas falhas, porque ela ainda é o povo da promessa. É continuar olhando para a Jerusalém celestial quando o presente tenta nos convencer de que isso é tudo o que existe.

A esperança futura precisa governar nossas alegrias presentes. Aquilo que esperamos define aquilo que amamos. Se nossa esperança está em Sião, então nossas escolhas, desejos e prioridades começam, ainda que lentamente, a se tomar a forma da realidade eterna. Nossa maior alegria não está em um lugar, nem em uma instituição perfeita, nem em uma experiência emocional específica. Nossa alegria está na pessoa de Cristo. Já pertencemos ao Reino que não pode ser abalado.

Isso muda tudo. Não vivemos mais tentando arrancar do mundo aquilo que só Deus pode dar. Vivemos como quem já encontrou o verdadeiro lar, ainda que não o veja plenamente. Caminhamos como peregrinos, sim, mas peregrinos cheios de esperança. Porque quem foi comprado por Cristo já começou a viver, desde agora, a alegria eterna de Sião.

“Sim, mas não sou mais eu”

Conta-se que Agostinho, depois de sua conversão, foi chamado por uma antiga amante: “Agostinho, sou eu!”. Ele respondeu: “Sim, mas não sou mais eu.”

Essa é a resposta de quem deixou a Babilônia e caminha em direção a Sião. O mundo ainda nos chama pelos velhos nomes, pelos antigos desejos e pelas mesmas promessas vazias. Mas, pela graça de Deus, podemos responder com firmeza e esperança:

“Sim, mas não sou mais eu. Minha alegria está em Cristo, o Rei de Sião.”

E enquanto caminhamos neste exílio, chorando e esperando, sabemos de uma coisa: a nossa pátria é eterna, e a nossa maior alegria jamais será tirada.

Lucas Lauriano

Sobre Lucas Lauriano

Cristão, casado, engenheiro de software e seminarista no Seminário Martin Bucer. Formado em Sistemas de Informação, transito entre tecnologia e teologia, com muito rock’n roll como trilha sonora dessa dádiva chamada vida.